Neurotóxico (cs). [De neur(o)- + -tóxico.] Adj. S. m. Med. 1. Diz-se de, ou substância tóxica para tecido nervoso

Empoeirado


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Terça-feira, Novembro 23, 2004

Os vaga-lumes, vindo de lugar nenhum, eram o sinal de que o ano estava acabando. Sem data, sem relógio, tudo o que poderia explicar o fenômeno dos vaga-lumes era a chegada do final do ano. Era essa a explicação científica e precisa para o fenômeno tão espantoso e curioso.

Os dias quentes, as trombas d'aguas, os trovões e a mãe dizendo que era Deus lavando o céu e arrastando os móveis. As manhãs preguiçosas com cheiro de café, as tardes lúdicas de "tom e jerry" e as noites de chão molhado e de caça aos vaga-lumes eram a rotina eterna do seu mundinho, ali, naquele pedaço de nada.

Tudo o que ele conhecia e que não sabia exatamente o nome recebia um apelido. Havia um corredor que ligava o quintal dos fundos com a garagem na frente da casa. Era um corredor grande, aberto, espaçoso e que, carinhosamente, era chamado de "corredorzinho". A garagem de portão baixo e enferrujado era conhecida como "a frentinha". Os marimbondos colecionados durante o dia recebiam os seus nomes. Nomes esses que os classificavam em resistência e tamanho. "O cavalo", sempre havia um "cavalo", era sempre o maior de todos. Aos menores, era dado o gênero de fêmea e era frequente a tentativa de acasalamento entre "O Cavalo" e a "Rainha". Frustradas, a coleção crescia com algumas outras tentativas, agora de rinxa, sendo interrompida apenas pelo futebol de pé descalço nas ruas esburacadas daquele bairro pobre, de casas modestas e pessoas simples.

E era aquilo a vida certa. Era aquilo o mundo todo. Não faltava ali nenhum luxo. E ele corria de volta para a casa, suado, roupas sujas e com o pé, muitas vezes, esfolado pelo asfalto quente e pelas incessantes tentativas de chutes perfeitos e certeiros.

O péga-péga era a brincadeira do final da tarde e o esconde-esconde, brincadeira levada seriamente até a sua adolescência, era a brincadeira preferida para as noites de luas cheias que deixava aquele pedaço de mundo com uma luz azulada, diferente. E foi naquele esconderijo, sempre o mesmo e que até hoje ele mantém em segredo, que ele viu o primeiro vaga-lume daquele verão.

- Pai, pai, os vaga-lumes, pai! - nem sempre o melhor do mundo, o pai era para ele a solução para todas as inúmeras perguntas e questões que pudessem surgir sobre qualquer assunto.

Entrou pela casa com a mão fechada e despejou o tão comemorado vaga-lume sobre a prancheta branca. O pai, atento ao inseto que agora andava sobre a sua mesa de trabalho, escutava toda a odisséia empreendida pelo menino que atentamente pajeava o pequeno ser que tentava correr pela mesa. E daquela pessoa de barba grossa e cheia, sairam as palavras mais assustadoras do mundo:

- Os vaga-lumes estão em extinção, filho, sabia!?

O som daquilo era assustador. Extinção, para aqueles ouvidos, parecia ser a coisa mais terrível do mundo. Ele tinha certeza de que aquilo era mal e que era verdade. Seu pai nunca mentiria para ele. E ele continuou:

- Existe um "bicho" que anda no meio da noite, um bicho grande, que pega todos os vaga-lumes....
- Que "bicho", pai!?

E o pai riu. E aquilo ecoou na sua cabeça de criança. Ele recolheu o vaga-lume e saiu afoito a procurar um daqueles potes de maionese que a mãe usava para guardar as especiarias da casa. Logo que encontrou colocou lá dentro o tão precioso vaga-lume e pensou com os seus poucos botões que ali era o lugar mais seguro para o vaga-lume, já apelidado de pisca. E saindo pelo jardim da casa, ele ainda ouviu o seu pai falando:

- Toma cuidado, filho.

E aquele bicho tomou proporções assustadoras na sua imaginação infantil. Era uma mistura de pássaro com morcego. Tinha pelos e penas, patas e asas. Era horrível e ele também concluira que ele era invisível. E que nem os vaga-lumes de luzes mais fortes seriam capazes de enxergar aquele terrível predador.

Agora não era mais uma questão de coleção ou brincadeira. Era uma questão de vida ou morte. Seu pai o alertara sobre "o bicho" e ele tinha cada vez mais certeza de que aquilo era mesmo verdade porque se tornavam cada vez mais raros os vaga-lumes. E naquela noite, a primeira noite do primeiro vaga-lume, ele não conseguiu salvar nenhum outro. O bicho já devia estar por ali.

Voltou à casa, triste, cabisbaixo e curioso. Que bicho seria capaz de tal atrocidade!? Os vaga-lumes traziam o final do ano, as férias, o verão. Sem vaga-lumes os verões não existiriam mais e aquilo tudo perturbava a sua cabeça. E as estrelas, os vaga-lumes do céu!? Será que eles também sumiriam!?

Homem de todas as respostas, o pai tinha agora levantado naquela mente crua a pior de todas as dúvidas. E ele dormiu inquieto. Horrorizado e assustado. Logo de manhã, olhou para o pote na cabeceira da cama. O pote vazio. Limpou os olhos. Abriu o pote, olhou embaixo da tampa e nada do Pisca. "O bicho" era mais real ainda. E muito mais poderoso do que ele podia imaginar.

- Pai, o meu vaga-lume...
- Que tem?
- Então, ele tava aqui...eu tinha deixado ele aqui, pai...eu tenho certeza...mas ele não tá mais...acho que foi "o bicho".

Pegou a caneca de café e continuou:

- Mas pai, ontem eu não vi nenhum bicho, pai. Ele é muito grande!? Eu quero saber que "bicho" é esse. Qual o nome dele? Como ele é!?

Seu pai riu:

- Deixa os vaga-lumes lá...fica olhando eles...e se "o bicho" vier...vc pega "o bicho", entendeu!? Armadilha. Tem que ser paciente.

Seu pai riu mais uma vez...passou a mão pela sua cabeça. Outro dia começara. Mais uma manhã com cheiro de café, Outra tarde de brincadeiras sem fim e uma noite de caça ao "bicho".

Quinta-feira, Novembro 18, 2004


O começo. A leveza. A simplicidade. A complexidade. A contrariatoriedade. A presa. O alvo. O tiro. A queda. A morte. O exato. O descabido. O imoral. Eu. Você. A lua. A noite. A janela. A luz. O escuro. A comcubina. A curiosidade. A amante. As frases. A história. O ponto. O além. A prolixidade. O errado. O certo. O chamado. O sonho. O espartilho. Os nós. Os laços. O fetiche. A cama. O suor. O suspiro. A sede. A mão. O olho. A boca. A mordida. O pescoço. O cabelo. A língua. Os pelos. Os lábios. O vermelho. O gemido. A imagem. A descoberta. A procura. A essência. O sabor. O cheiro. O toque. A vida. O fim. E tudo isso ao mesmo tempo.

Terça-feira, Novembro 16, 2004

Como sempre, tudo parece ser "tarde demais". É tarde demais para voltar. Tarde demais para voltar atrás. Tarde demais para pedir desculpas. Tarde demais para pedir qualquer coisa. Como sempre, o sempre nunca é o bastante, nunca sempre impera e o nada é praticamente o meu Deus, minha fé. Fé - maldita seja. Malditas sejam todas as palavras que não deviam ser ditas, todos os dias que não deviam ter existido e todas as vezes em que eu pequei por simplesmente ser o que eu sou. Se lamentar bastasse, se fosse isso suficiente para todo o meu mundo se tornar real, se qualquer sonho pudesse, se tudo simplesmente não ruísse, talvez um dia eu saísse da minha superficialidade infantil e ridícula. Foda-se. Cansei de mim. Cansei de tentar ser. Cansei de tentar. Cansei de existir só pra mim. De tornar tudo tão real e puro só pra mim. De ter tanto e nada. De não ter nada. Exatamente nada e nenhuma escolha a não ser a mesma. As mesmas dores. Os mesmos medos. O avesso de tudo e a essência do nada.

Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Esses dias eu estava mexendo o molho de tomate em uma panela de aproximadamente 1 metro de altura por 50 centímetros de diâmetro. Isso é uma tarefa meio complicada. Exige uma certa coordenação motora. O molho é meio grosso e qualquer movimento em falso faz com que ele voe nas direções mais inesperadas. Numas dessas libertinas lançadas de molho, o perdigoto vermelho acertou o meu olho. Mas não a pálpebra!! Eu achei que eu consegui fechar o olho antes dele me atingir...mas não...foi horrível. Ardia e o molho ainda tava quente. Aliás, meu olho tem um imã para objetos estranhos. Não importa o que, nem como e tampouco o tamanho, se ele estiver voando sem destino o destino será o meu olho. Enfim...tudo isso me lembrou um outro dia, um outro momento.

Dessa vez eu não estava mexendo molho. Eu tinha acabado de sair da pizzaria. Aproveitei e fiz um sanduíche pra mim. Com alho, carne, queijo, o sanduíche cheirava longe. Então, eu pensei que poderia levar o sanduíche pra casa ou comer por ali mesmo, por que não!? Alguns porquês nunca têm as respostas devidas. E lá fui eu sentar em uma mesa do restaurante onde eu estava trabalhando naquela época.

Era uma época confusa pra mim. Minha vida pessoal tava afundando no lodo e eu tinha acabado de sair da pizzaria onde eu trabalhei durante um ano. Eu tava triste, inseguro e aquele sanduíche parecia ser a coisa mais perfeita para o momento que talvez pudesse ser o mais feliz do meu dia. O salão do restaurante era comprido. Eram duas colunas de mesas e umas cinco fileiras. Eu sentei na última, lá na frente, escondido. Um casal esperava uma pizza e estava sentado logo em frente à bancada do restaurante.

Eu sentei, tirei as minhas coisas do bolso. Voltei para pegar uma coca-cola. Sentei de novo. Peguei metade do sanduíche e um guardanapo. Quando eu abri a boca para morder o tão suculento sanduíche, eu vi uma garrafinha de katchup. "Heinz". Porra, eu pensei, por que não!? E mais uma vez os porquês nunca têm as respostas certas e eu coloquei a metade do sanduíche no prato de papel que estava em cima da mesa. Peguei a garrafinha de katchup. Uma sacudida e dois tapinhas no fundo eram exatamente o que aquela garrafa precisava. Como um rapaz de classe, segurei o pescoço da garrafa com uma mão e desrosqueei a tampa com a outra. E "ssssss! (pausa) ssssssplash!". Eu só lembro do barulho e de mais nada. E sentia a minha cara toda gelada!!! Eu não enxergava nada!

Eu calmamente me levantei e tateando as mesas eu cheguei até a porta do banheiro. Achei a torneira, limpei meus olhos e me olhei no espelho. Eu caí em uma gargalhada tão alucinada!! Minha cara tava toda vermelha e a aba do boné tinha um risco vermelho que terminava exatamente na minha testa e continuava pelo meu rosto onde o estrago foi bem maior. A minha camiseta estava intacta. Eu achei isso o máximo, apesar de ter que lavar o cabelo que o boné não cobria. Sabe aquela cena de desenho animado!? Que a bomba explode na cara do Tom e só metade fica preta!? A minha metade ficou vermelha. E eu continuava meio cego. E rindo. Bom...eu voltei para o meu sanduíche. Limpei a mesa antes de começar e tentei achar a tampa do katchup que desapareceu. Olhei para trás. O casal continuava lá...rindo.

E finalmente eu comi. Limpei a minha boca. E a mesa, novamente. Levantei e foi aí que eu vi a outra face da desgraça. Todas as mesas das quatro fileiras atrás da minha mesa estavam manchadas de katchup. E isso também incluia os respectivos acentos e um pedaço da parede sem contar uns respingos no chão. E eu, que deveria ter ido comer o sanduíche em casa, demorei mais meia hora para limpar as oitos mesas e uma parte da parede próxima a minha mesa.

Bom. Isso acontece, né!? Agora, por que sempre comigo!?

Abraços!

Terça-feira, Novembro 09, 2004

O nome dele é Josias. Josias, assim como muitos brasileiros, veio parar aqui há poucos meses à procura da liberdade. Sim, liberdade. Dinheiro não compra felicidade mas, dentre essas e outras coisas que o dinheiro não pode comprar, ele compra sim a liberdade. Não conheci o Josias e nunca mais vou ter essa oportunidade. Josias morreu na noite de sábado para domingo. Ele estava em uma mecânica ao lado da pizzaria onde eu trabalho, em Marlborough. Não tenho detalhes do acidente. Estava junto com ele outro brasileiro de nome Sérgio que, correm os boatos, perdeu a/as perna/s e está entre a vida ou a morte em um hospital em Worcester, norte de Massachusetts.

Ninguém conhece o Josias, ninguém sabe de sua história e tampouco conhece os seus motivos. Eu sou mais um. Domingo, eu senti uma mistura de medo com indignação com remorso com ódio. Por que somos tão indiferentes à vida!? Por que somos tão indiferentes à nossa vida!? Por que somos tão indiferentes à vida dos outros!? Como não percebemos ser tão vuneráveis e frágeis frente a uma imensidão de fatores físicos e extra-sensoriais que comprovam a nossa nítida ignorância e despreparo!? Por que nos sentimos como deuses de poderes ilimitados e sábios ao ponto de termos certeza de que sempre estamos no caminho certo!?

Como disse o Tazo, ele morreu lutando. Eu concordo. E essa frase tapou um pouco da ausência de vida e glória que eu sinto. Junto com o Josias, morreu em mim uma vontade. Morreu em mim uma outra vida. Morreu em mim a indiferença e o descaso. Junto com o Josias, nasceu em mim uma certeza. Porque sim, ele também nasceu. Parabéns ao Josias. Que esteja livre onde estiver. Parabéns ao Sérgio. Que consiga a força necessária para continuar lutando.

Despeço-me, triste, inconsolável e lamentando a perda de um anônimo que será símbolo da minha história.

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Não é nada. Mas bem que poderia ser alguma coisa ou essa alguma coisa ou esse nada não fosse a minha vida inteira. Podeira tbm ser verão. Ou talvez pudesse ser só a primavera que antecipa a chegada do tão esperado sol e que pode ser comparada à minha ansiedade. Esse nada e esse verão poderiam ser exatamente o dia em que eu não conhecia nada. Ou o dia em que eu não conhecia a minha vida e tbm o verão e tampouco a ansiedade. Essa ansiedade poderia ser não só pelo verão ou pelo nada mas que fosse por algo velho ou "semi-usado" ou não exatamente novo ou estranho. Isso que é tão estranho poderia ser nada e seria isso a minha vida ou uma parte dela.

Não fosse a paciência...não fosse o acaso...fosse exatamente aquilo que vc queria que fosse ou tivesse sido. E lá acontece o perfeito. É verão e vc não espera nada. Vc simplesmente observa, absorve, replica, digere, comenta, racionaliza, experimenta, toca, sente. E o dia se faz "o dia". O sol se faz "o sol". A noite se faz "a noite". E tudo, exatamente o tudo, nada mais é do que aquilo que vc nunca pensou ou que simplesmente nunca existiu. Ou, talvez, esse seja "o nada", exatamente nada!

E o mar se acalma. E os trovões se calam. E o vento...só o vento não recua, não cede. E vc não enxerga. E vc se cala. E vc não ouve ou não quer ouvir. Mas o vento ainda insiste. Sempre o mesmo. Ele nunca muda. Ele não quer mudar. E vc, sem saber se é aquilo o nada, se esconde, foge, desaparece, some. E se torna nada.

Abraços...