Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005
Desperdicei mil beijos sinceros, mil anos vividos. Troquei palavras verdadeiras por gestos hipócritas. Corri demais quando devia ter ficado parado e parei quando o melhor a ser feito era criar asas. Não voei. Sofri o prazer de ter amado. Senti o amargo da felicidade de um sonho. Mas eu não sonhei. Não sonhei que eram esses os seus beijos. Não sonhei que eram esses os seus sonhos. Não voei.
Um dia, se eu me sentir sozinho, eu talvez grite. Talvez eu já tenha gritado antes. Talvez esse grito tenha sido fraco demais. Vc já sentiu isso!? Eu sempre tenho esse pesadelo...eu tento gritar - eu quero chamar alguém, pedir ajuda ou simplesmente gritar - e é como se meus lábios não se abrissem. E um desespero invade o meu estômago e eu sinto a dor terrível da impotência simplesmente por não pode gritar.
Quantas vezes pequei. "Go on and step on me". Simples e eficaz é sentir-se perdoado. Principalmente quando o perdão só depende mesmo da gente. A culpa talvez doa mais do que a impotência. Impotência não é incapacidade ou fraqueza. Culpa é. Pior, ela é um espelho refletindo os resultados das nossas fraquezas. Sentir-se culpado é sentir-se impotente frente aos resultados, é sentir-se fraco por ter feito algo fútil ou passível de culpa e também é sentir incapaz por saber que não conseguiria fazer diferente. Agora, quem disse que vc é culpado se não vc mesmo!?
Nunca sabemos o que nos espera e mesmo quando achamos que estamos preparados para qualquer coisa o impensado aparece e nos faz fraco - novamente. Como é difícil ser fraco. O pior é saber que se é e se mostrar tão forte e imbatível quando tudo o que se deseja é chegar em casa e chorar confidências ao anonimato intrépido de um travesseiro qualquer. E ser dignamente fraco e feliz.
É fácil projetar expectativas. Desde criança somos educados a esperar por alguma coisa. É como se ser bonzinho bastasse para que tudo caia do céu e vc ainda ouve aquela voz acompanhada do tapa no ombro: "bom garoto". Nada de errado. Mas eu me acostumei com a busca. Eu quero, eu posso, eu faço, eu vou e eu consigo. O que? O que eu quero!? O meu reino por algo que me faça querer. O meu mundo por um dos segundos perdidos. O universo por um sonho qualquer. A minha alma por algo que me faça sentir......Quantas almas já desperdicei......
Quantas ainda me restam?
Abraços...
Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Qualquer emoção já seria suficiente. Mas não que eu queira uma emoção qualquer. Isso seria menosprezo e tbm não seria digno. Mas...pra que aumentar o tamanho das coisas pequenas? Um simples sorriso dicreto e pequeno. Já não seria isso o bastante? No meio de tantos fevereiros, esse talvez esteja sendo o mais "funheca". Sentimento "funheca" é uma coisa estranha. Indiferente, talvez seja a palavra. Tudo parece muito mais morto do que já era. O que sobra é uma vontade de dizer chega. Dar um basta e fazer o mundo girar de novo. Mas...talvez...ele nem tenha parado de girar.
Do mais...esse fevereiro levou embora até a minha melancolia. Eu sempre a tive como um bichinho de estimação. Uma maneira romântica e egoísta de manifestar aquilo que eu sinto. Não é a melancolia da tristeza ou prostação. É a melancolia do desencanto, como se nada fizesse sentido. Mas nem isso eu tenho mais. Mas tudo ainda continua sem sentido e é disso que eu to falando...essa coisa meio "rotina bucólica".
Aliás...falando em bucólico. Os esquilos já saltitam felizes pelas árvores. Apesar de ainda existir neve, já é possível sentir o cheiro dos gambás. Os passarinhos voltaram a cantar. Primavera. Seja lá o que isso for, que seja bom.
Abraços...
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005
"...e eu rogando ao tempo me perdoa..."
Minha relação com o tempo é complicada. Como o chapeleiro, eu acho que eu briguei com o tempo e ele parece ter parado. Por outro lado, o tempo brigou comigo e tem andado cada vez mais rápido. A sua vingança vai ser concluída no dia em que ele resolver se mostrar novamente. Aí, como naquela música, eu me olho no espelho e me vejo velho e acabado. E o tempo que passou e não volta e será tarde demais, como sempre.
Eu não acho que tenha perdido o tempo. Talvez o tempo tenha se perdido e só caiba a mim encontrar o meu tempo entre tantos outros tempos perdidos. Perde-se tempo. Perdem-se muitas outras coisas. Paciência tbm se perde o que faz com que eles tenham lá suas afinidades. Paciência é conseguir manter calma com o passar do tempo. Mas paciência sempre acaba antes do tempo. E o tempo continua e vc sente que ter tido paciência foi uma perda de tempo ou que ter perdido a paciência só te fez perder mais tempo ou, ainda, que tudo não poderia ter sido diferente e foi tudo uma grande perda de tempo.
Mas...e acreditar!? Quando se acredita em alguma coisa estamos perdendo tempo? Acreditar depende de quão esperançoso se é. Esperança, mesmo sendo a última, morre. E esperança também se perde, assim como o tempo e a paciência. Esperança perdida significa desistência. Desistir é não ter paciência para dar à esperança o tempo necessário para que ela aja sobre o tempo a ponto de tornar real o inacreditável. Afinal, desistiu é pq não acreditava.
Então...se eu acreditar e tiver paciência e mantiver viva a esperança, o tempo é um simples detalhe. Mas...(sempre existe um "mas")...acreditar em que? Em quem!? Por que? Não sei.
Abraços...
"...e eu cantando adeus e indo embora..."
Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005
Outro dia, vagando aqui pelo apartamento eu me dei conta que a revolução feminina está em ficar dentro de casa. Isso pode soar machista e discriminatório ou qualquer outra coisa. Mas, o buraco é mais embaixo. Era meu dia de folga e tive que acordar cedo. Assim que eu levantei eu fui fazer café e tentei ligar a cafeteira. Sério...meu irmão comprou uma cafeteira nova. Eu - sem querer - quebrei a antiga. A antiga era uma cafeteira simples. Nada luxuosa, branca com o recipiente de vidro. Vc colocava água lá dentro, filtro de café, pó de café, apertava o único botão e ela fazia aquele barulho infernal "plushpurururururururshhhhhhhhhhhhhh" e um minuto depois o café tava pronto. Forte, preto e quentinho. O único problema era esquecer ela ligada. Ela cozinhava o café até transformá-lo em um crosta preta lá no fundo. Enfim...essa cafeteira nova tem tudo isso que a outra tinha mas sem os defeitos. Vc precisa de água, filtro de papel, pó...só que ela tem inúmeros botões. Eu acordei...olhei pra cafeteira e logo me veio na cabeça a voz do meu irmão que no dia anterior ao me ver entrando em casa depois do trabalho, disse:
- Olha aqui a cafeteira que eu comprei...quase que não consigo fazer café!
E ele me explicou tudo. Mas, naquela hora, que eu tinha acabado de acordar, eu sentia a minha cabeça tão vazia. Era tão fácil a outra cafeteira amiga. Eu já sabia as medidas, colocava tudo lá de olhos fechados e apertava o botãozinho e não precisava de senha! Bom...eu não acordo sem café. Eu tive que enfrentar o monstro. Vcs devem estar se perguntando "mas é só ler o manual"...eu tbm achei fácil assim no começo. Enfim...colocar a água. Coloquei. Só que aí, ao abrir a tampa de cima da cafeteira para por o filtro de papel eu achei um outro filtro e lembrei do meu irmão me explicando que aquele era o filtro da água. Precisa trocar de mês em meses. Bom..era só deixar ele fora do caminho por enquanto...colocar o filtro de papel. Pó de café. Fechar a cafeteira...fechada...abre de novo pq vc esqueceu o filtro da água. Ok. Botões. Apertei o primeiro e ela não reagiu. Esperei um pouco. Apertei o outro botão. Ela não esboçou nenhuma reação. Nesse meio tempo eu me hipnotizei com o relógio que ela tem bem na frente. Logo em cima do bule de metal. Um bule térmico de aço escovado. Fiquei olhando pra tudo aquilo. E eis que quando eu ia apertar o terceiro botão - acredito que ela ficou com dó de mim - a cafeteira começou a fazer um barulho. Nada infernal. Um barulho fino de quem tá fervendo a água de mansinho..bulululululululu. Cheirando a café, a máquina termina o trabalho e apita cinco vezes. O apito é irritante, eu tenho que falar. Aí eu fui até a cafeteira e ela marca o horário que o café foi feito. Ela dá duas horas de validade para o café. Não cozinha o café como a antiga e ainda tem a função de café com delay. Vc programa o horário e ela começa a fazer o café no horário que vc quiser. Ótimo. Mas...cadê o cafuné da nêga trazendo na cama o cafézinho coado em filtro de pano? Não tem. As "nêga" agora trabalham. Elas têm lá as sua rotina e conquistaram o seu espaço na sociedade. Mudaram os costumes, as leis. A própria maneira de fazer sexo. Agora a mulher tbm quer satisfação. Mais do que certa, afinal, agora ela não precisa ficar em pé depois do jantar lavando a louça. Ela usa a lava-louça. Ela tbm não precisa se preocupar com a janta. Pode comprar congelado e em mais ou menos meia hora vc tem um banquete todo feito em microondas. A roupa da criançada, a cueca do maridão e a seda da princesa têm destino certo: a máquina de lavar. Nada mais de tanque e unhas roídas na pedra rústica que esgarçava as roupas sem pudor e ainda deixava a mão da dona com um aspecto judiado e tals, nada macio, sem tato e que assustava o maridão. Sem contar que varal é pré-histórico e com uma boa secadora nem é preciso passar roupa.
Bom...agora...nada mais justo. Conforto nunca é demais. Mas isso vicia. Só essa semana eu lavei a louça todos os dias na lava-louça. Cheguei a deixar a louça acumular dois dias pra não desperdiçar água. O fogão tá limpinho pq tem um spray que simplesmete deixa tudo limpo Tudo. É só fazer "tchu" que parece que ele assusta a sujeira. Usei ele ontem no fogão pq queria fazer os vegetais fritos na manteiga com cebola e alho e o microondas não te dá liberdade de ação. Ah...os vegetais eram congelados e pré-cozidos. Minha roupa tá limpinha, cheirosa, macia e dobrada.
Eu e a Minha porção Amélia! É fascinante ser mulher de vez em quando.
Abraços.
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
O simples e suficiente...
Como se fosse a primeira, o medo. Os olhos se abrem em um súbito suspiro para deixar dobrar o pescoço e a cabeça cair como se todos os músculos simplesmente não respondessem mais. Mudos de euforia e desejo os corpos cedem: prazer. Os lábios se avermelham, as pupilas se dilatam. A alma teima em sair pelos poros. A pele não resiste ao toque e como tudo ali se desfaz e esmorece em rubor e suor. Ofegantes, os músculos tensos esperando, esperando, esperando. Mais, mais, mais. Quase. Pouco. Respiram fundo enquanto as unhas rasgam a carne que estremece e grita. Os lábios agora pálidos se abrem ao silêncio, os olhos se fecham em um pudor cínico de lágrimas obscenas. Delicado e rústico: pianoforte. Coração palpitando em êxtase. Entre o bom e o sofrível, o simples e suficiente.
Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
- Eu te amo...
- Será!?
- Como assim "será!?"?
- Ué...será?
- O que você quer dizer com isso!?
- Nada. Foi uma pergunta clara, simples e objetiva. Será?
- Uma pergunta clara, simples, objetiva e broxante!
- Se você quer enxergar assim...
- Eu não to enxergando nada...Acho que é você quem não quer enxergar...
- O que?
- Como assim "o que?"?
- Outra pergunta clara, simples e objetiva...
- Eu não to conseguindo te entender...
- Quem disse que eu quero que você me entenda?
- Olha...eu não quero discutir...que coisa mais besta...eu só disse "eu te amo"...
- Tá vendo...você "só" disse que me ama...
- Foi só uma maneira de falar...isso não significa...
- "Só" de novo e sim...significa um monte de coisas...
- Como o que?
- Como você "só" disse que me ama...
- Que isso não tem valor, você tá querendo dizer?
- Da minha boca não saiu...
- Como não saiu da sua boca...agora você deu pra menosprezar o que eu sinto!?
- Não...
- Então?
- Então o que?
- Eu não acredito que você tá fazendo isso comigo...
- Isso o que?
- Nada...esquece...
- Não...nada de esquecer...porque, do mais, a gente nunca esquece...
- Você esquece...
- Esqueço o que?
- Aliás...já esqueceu...
- Como assim?
- Assim que fazem exatas 24 horas que estamos juntos e você nem deu a mínima!
- Poxa...mas são só 24 horas...
- "Só"?
- Só...
- Como você pôde me usar desse jeito?
- Como assim "usar"?
- Ai...cansei de você...olha...me esquece...não me liga mais...desaparece da minha vida.
- ???
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
O inexplicável...
Queria conseguir e poder falar mil coisas ao mesmo tempo. Sintetizar todos os sentimentos, toda a angústia em um só palavra. Como uma metralhadora, disparar mais de um milhão de frases por segundo...e todas elas certeiras. Queria poder admirar o sol sem medo de me cegar. Olhar uma janela sem cortinas. Um horizonte sem nuvens. Mas, tudo o que consigo agora é exaltar a minha insegurança e impotência. Não encontro soluções porque talvez não existam e se existissem talvez não fossem suficientes. Nada é suficiente. Tudo foge ao controle. Mas só foge porque se tenta controlar. Se lhes fosse dada a liberdade para navegarem de encontro às suas próprias soluções, talvez conseguíssemos essa tão exaltada sensação de controle, falsa é claro. Tudo é falso. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Conjugado em todas as pessoas o inexplicável será sempre o predicado de todas as minhas ações.
Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
O incomensurável...
Ele nunca havia se sentido assim antes. Aquilo tudo não cabia nele. Ele se sentia pequeno demais. Não existiam palavras, não existia nada que pudesse descrever aquilo. Ele então se sentiu bobo. Sentiu-se como no primeiro dia da escola. Perdido. Procurando em todos os rostos algum conhecido. Tentando imaginar o que haveria de tão importante ali dentro. Não era novo, mas também não era o mesmo. Não era exato, pelo contrário, era tudo muito confuso e controverso e mesmo assim era lógico. Nada daquilo era algo que ele quisesse ou houvesse procurado. Tudo simplesmente aconteceu.
Para ela não era diferente. Mas tinha algo mais. Sempre existe algo mais para uma mulher, sua mãe costumava dizer. Os sentimentos todos desorganizados se confundiam com a preocupação com o cabelo errado, a roupa errada, o sapato errado - atrasada. Atrasar é a fórmula da conquista, ela pensava. Nada ali era muito especial. Mas tinha algo diferente. Os encontros, os desencontros, as promessas, os olhares. A ela valia a história. Os detalhes. Os gestos.
O que eles buscam, não se sabe. Talvez seja isso o que todos buscam. A medida inexata do óbvio que se esconde a cada sorriso. A felicidade espontânea e quase que ilícita e que faz brilhar alguma estrela de alguma galáxia distante tamanha a força. Um querer involuntário, descabido. O contentamento inconsequente dos que amam por acaso. O incomensurável prazer de simplesmente poder tocar aquilo que te tão adorado chegar a ser santo não fosse tamanho o desejo. Tudo igual não fosse ela. Tudo velho não fosse ele.
Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
O insustentável...
- Nunca mais quero te ver na minha frete!! Some! Eu simplesmente não aguento mais! Não aguento mais...esse seu jeito medíocre, essa sua futilidade infantil, esse seu cinismo. Simplesmente não aguento...não quero. Não consigo. Não vejo como!
Ela então se vira. Pega a bolsa sob a mesa. Ele ainda ouve os passos dela pela escada, mas não reage. Fica ali, pensando, imaginando o quão melhor tudo foi. A cabeça parece não querer levantar. E ele fica ali, olhando o chão, os pés descalços no carpete, a barra esgarçada do jeans surrado. A janela do apartamento da as boas vindas à sinfonia urbana e sua cortina cinza. Mais um dia de transtorno. Mais um dia, ele pensa. Ele olha ao redor. Na estante da sala a foto dos ainda amigos, sorrindo, como se nada pudesse ser melhor. Segundos depois a mesma foto, agora rasgada, descansa no chão entre os estilhaços de outras lembranças.
- Aquele filho-da-puta-maníaco-desgraçado vai me pagar. Ele vai engolir palavra por palavra. Tudo!
E ela acionava loucamente a buzina de seu carro, xingando a todos. O mormaço de final de tarde se misturava com o cheiro de fumaça e suor. Ela só queria passar por dentre o trânsito. Todos os faróis estão vermelhos. O ônibus. O motoboy. O gari assovia. O camêlo anuncia sua ofertas no microfone chiado. Outro motoboy. Mais um. E o buzinaço parece apenas estar começando. Ela sente o desespero descer pela garganta e parar antes de poder chegar ao estômago e ser digerido. A sensação podre e fétida de simples impotência.
- "Em Brasília dezenove horas"
Ela respira fundo. A cabeça dói. Os olhos ardem. O corpo soa.
- Maldito. Maldita a hora. Maldito o dia. Maldita eu! Que acreditei naquele idiota!
Ela então esmurra o volante. As mãos tapam o rosto como um pedido de calma. A buzina, o motoboy, o ônibus, a buzina, a vertigem, o asco. Todos assistindo ao show. Mas eles talvez tenham sentido inveja por não poderem vomitar o insustentável sem nenhum pudor.
O inevitável...
Um certo pudor nas palavras calava as bocas antes tão eloquentes. Os olhares fixos, travados um ao outro, se desafiavam com um certo rancor e ódio. Os pensamentos se confundiam com lembranças e se misturavam com o remorso dos dias errados. Sentados ali, eles eram apenas mais dois. Eram, outra vez, vítimas deles mesmos. Vítimas do fracasso próprio e da indecisão mútua. Ele, na hora errada, quebra o silêncio:
- Não sei o que fazer...
Ele nunca soube o que fazer, pensava ela enquanto pedia mais um café. Virou o rosto para o lado, admirou o horizonte com o olhar perdido dos que pensam e resolveu dar voz aos pensamentos que sempre insistiram em existir:
- Você nunca soube o que fazer! Nunca. Desde o primeiro dia. Agora...o que você queria que eu fizesse? Queria que eu colocasse a sua vida na frente da minha? Queria que eu simplesmente virasse as costas para o meu passado e enfrentasse o "seu futuro" de braços abertos? Você nunca teve futuro. Você não tem futuro. Você nunca quis ter um futuro. Mas...se te interessa....eu sei o que vc deve fazer...
E parou sentindo a garganta presa. Voltou a olhar o horizonte que se abria para o Largo São Bento. Tragou o cigarro com um certo desdém no olhar. A cara de quem havia provado o amargo. O encarou por um instante enquanto amassava a bituca no cinzeiro cheio. E reclamou:
- Eu não sei porque disso tudo. Não sei muita coisa. Eu queria entender...juro. Juro por Deus se ele existir! Mas...simplesmente te enteder não é suficiente. Você não quer que eu te entenda. E, se vc quer saber, eu também não quero mais te entender. Desisti.
- Eu nunca pedi para que você ficasse ao meu lado...ou para que vc tentasse me entender...você fez o que quis...esse seu jeito de se desfazer da culpa, de se absolver, de se livrar de todo peso é fantástico...a responsabilidade também é sua. Aliás...acho que sempre foi...
E ele se levantou bruscamente, jogando a cadeira pra trás e chacoalhando a mesa. Ela o segurou pelo braço. Ele com o olhar baixo e a respiração ofegante parou por um instante enquanto todas as memórias se embolavam. Ele se desprendeu da mão que o segurava. Caminhou até a porta. Parou. Olhou pra trás. A cadeira caída, a mesa desarrumada. Ela estática. Ele abriu a porta. Ela ainda o viu caminhando em direção ao metrô. E no meio de mais um suspiro o inevitável aconteceu e eles nunca mais se viram.