Terça-feira, Março 22, 2005
A infância e a melhor parte das nossas vida e a que deixa as melhores histórias ou traumas e, por algum acaso doo destino, não conseguimos esquecê-los.
Morava em um sobrado com uma garagem que tinha uma rampa em declive para a rua. Eu tinha um triciclo bandeirante azul de rodas laranjas. Desde pequeno eu já era um amante da velocidade e usava essa rampa e esse triciclo para o meu momento treinamento pessoal de velocidade que desencadeou em uma clávicula quebrada aos sete anos de idade e um quase mega atropelamento quando eu realizei um tombo forçado em uma avenida movimentada aos quinze anos. Voltando à minha infância, eu tinha lá os meus quatro anos e era um ritual descer aquela rampa que acabava na rua. Não havia portão na entrada da garagem o que facilitava em muito a minha vida e o meu deleite. Descia a toda a velocidade que o triciclo permitia, entrava derrapando rodinhas na rua e voltava empurrando a minha máquina de plástico até o começo da rampa para começar de novo a minha brincadeira ¿inocente¿.
Um belo dia, descendo essa rampa, eu me deparei com aquilo que eu chamo de ¿portão¿ até hoje. Sim, meus pais, sempre muito preocupados com a minha ¿vida¿, decidiram colocar um portão na entrada da garagem. Assim não aconteceria nenhum acidente, afinal, a rua não era um espaço seguro para uma criança de quatro anos. Mas, como eu disse, eu estava descendo a rampa quando me deparei com o portão pois não tinha sido avisado com antecedência e ¿pa-pum-puft¿. Eu dei com a cara no portão, literalmente. Um acidente quase inocente não fossem as marcas físicas e traumáticas que eu carrego até hoje.
Eu bati com o meu lado direito do rosto no portão. Na época, minha mãe disse que meu rosto inchou um pouco e que me levaram ao médico para ver o resultado do meu primeiro acidente usando um veículo não motorizado de alto poder destrutivo. O resultado não foi ruim. Eu tive que enfrentar uma sessão de sopas e sorvetes e sucos e, para a felicidade dos meus genitores, nenhum osso havia se quebrado. Eu estava inteiro mas com uma ¿covinha¿. Sim, com a pancada o músculo do meu rosto rasgou por dentro e me deixou com essa marca imperceptível e charmosa.
Alguns anos depois, eu acordei com um inchaço na genviva. O inchaço era como uma bolha vermelha e se localizava logo abaixo ao terceiro molar inferior direito. Por coincidência ou não, justamente onde a minha ¿covinha¿ acidental se encontra. O resultado desse inchaço foi algum problema na raiz do meu dente de leite e eu , com sete anos, tive que arrancar a ¿boticadas¿ o meu primeiro dente. Isso foi devidamente superado pelo meu orgulho e pelo dente que ¿haveria¿ de algum dia nascer. Ele nasceu aos meados dos meus onze anos.
Feliz da vida e de dente novo eu resolvi comer muitos doces para festejar e contraí uma cárie no meu dente novo, novinho em folha. Doeu e eu resolvi, forçado pela minha impaciente mãe, a ir ao dentista. O segundo dentista da minha vida foi um japonês ao qual faço questão de esquecer o nome. Ele obturou o meu dente novo a marteladas e pontapés e me entregou sorrindo para a minha mãe enquanto todas as minhas lágrimas escorriam pelos meus olhos. Alguns meses depois: batata! A obturação caiu e eu tive que voltar àquele assassino de avental. Ele refez a sua própria merda e me entregou sorrindo para a minha mãe mas não antes de eu dizer a ele que nunca mais voltaria ao seu consultório. Ele riu de mim, afinal, essa obturação cairia de novo e parecia que ele sabia disso.
Ela caiu. Uns dois anos depois quando eu já tinha treze ou quatorze anos. Eu, que mantive o meu orgulho, fui a outro dentista. Um senhor responsável e carismático. Lembro exatamente da cara dele quando ele viu o meu dente. Era como um interrogação. E veio a pergunta: Você lembra do dentista que fez ¿isso¿ no seu dente!?. Sim, eu lembro, respondi e falei o nome e o endereço do carniceiro. Ele refez com algum cuidado o meu lindo dentinho mas foi direto ao ponto: Algum dia você vai ter que abrir o canal desse dente. Eu respondi okay mas sem fazer idéia do que ele tava falando.
O mundo girou e os anos se passaram e o bom velhinho parecia ter feito um bom trabalho até que eu, no alto dos meus 20 anos, me vi novamente nas luzes do holofote terrorista dos assento de outro dentista. Eu até hoje acho que aquele cara me cantou. Eu fiquei com muito medo, afinal, eu estava lá, sentado e reclamando da obturação que tinha quebrado de novo e totalmente indefeso e ouvindo ele dizer que eu tinha ¿lindos dentes¿, ¿dentes maravilhosos¿, ¿mas que dentes lindos¿. Enfim...ele fez lá o seu trabalho, muito bem feito, e me disse: Cavaram demais esse dente aqui. E eu pensando que já era a quarta vez que alguém estava lá cavando de novo. E ele continuou: Você vai ter que fazer o canal desse dente algum dia. E eu pensando que já tinha ouvido isso antes. Ele me explicou os porquês e todos os motivos e tudo o mais. Saí de lá pensando que finalmente havia encontrado o dentista da minha vida.
Mas, todo caso de amor está fadado ao fracasso. Muito mais se tratando de dentista e o meu terceiro molar inferior direito. A obturação quebrou novamente. Eu já estava com 22 anos e cansado do meu dente que vinha sido alvejado desde que eu me conhecia por gente e desde que ele era apenas um projeto. Um dente de expectativas mil fadado a mil obturações sem sucesso.
A minha última parada antes de vir para os EUA foi em um dentista. Eu tinha que arrancar o ciso e coloquei aquele dente no pacote. Não me alonguei muito na história do meu dente com ele. Mas, quase que instantaneamente, ele me disse: Hummm, esse dente já era, meu! Mas eu não tinha tempo. Estava com as passagens marcadas para duas semanas depois daquela consulta. Eu tinha pressa e o meu lindo dente não seria o motivo para o atraso da minha viagem. Ele disse: Vou fazer o melhor que puder.
Ele não só fez como descobriu o porquê as antigas obturações se quebravam constantemente. O meu molar superior batia constantemente no molar inferior, bem no meio das obturações. Água mole em pedra dura, conhece!? Então, ele então lixou a ponta do meu molar superior que vinha maltratando meu terceiro molar inferior direito. Assim que ele acabou eu senti um alívio surpreendente. Era como que toda minha ¿mordida¿ havia se mudado. Ainda mais por ter retirado os quatro dentes do ciso de uma só vez. Depois de tudo ele foi enfântico: Esse dente tá muito fino. Você precisa tomar cuidado com ele.
Eu estou tomando todos os cuidados, ou estava. Ontem a profecia se cumpriu. Mas não foi a obturação e sim o dente. Um parte da sua lateral ruiu ao mastigar um sanduíche de pastrami com cebola, mustarda e queijo. Foi a pior sensação da minha vida. É como que algo estivesse faltando em mim. A obturação está intacta. Firme e forte. E eu aqui, triste e lembrando que tudo pode ter sido consequência de uma inconsequência de quando eu tinha apenas quatro anos de idade e sonhava com um mundo cheio de rampas de garagens sem portões.
Quarta-feira, Março 16, 2005
Algumas coisas não se deixam esquecer. Outras são cínicas o bastante para irem e virem. Umas somem como se nunca tivessem existido ou acontecido e outras, mesmo tendo sumido deixa rastros que só o tempo pode e consegue limpar.
Tudo isso...só pra dizer que a vida é mesmo boba.
Abraços.
Segunda-feira, Março 14, 2005
Há algo de simples e fascinante na noite. Ela me inquieta pela sutileza e me hipnotiza com o seu silêncio. Talvez seja a poesia que se esconde por detrás de cada sombra. A penumbra e seus mistérios. As estrelas e suas interpretações. A lua e sua melancolia. A glamurosa concepção divina de infinito: o universo. Os sinais de vida que se escondem por detrás de faíscas elétricas. E os sonhos de tantas pessoas que se renovam em meio a medos, desejos, delírios, angústias. Uma cidade morta dormindo o sono dos justos e acordando no pesadelo dos injustiçados. O que é real? O que é fantástico? O que é lúdico? À noite nada é real e tudo é dúbio. Todos são pálidos e vazios. Todos inconscientes, sonâmbulos, caminham como se o paraíso estivesse em cada esquina. E está. Beba-me. Coma-me. O pecado brilha nos neons tortos. Os caminhos tortos de passos bêbados que se alienam e se deixam alienar. Pela noite com os meus mesmos demônios e me perguntando de novo as mesmas coisas. Na noite de latidos e murmúrios, de suspiros e prazeres, nos perdemos quase sem se importar. Nos deixamos levar encantados, tórpidos . Nos calamos só pelo prazer do silêncio e gritamos pelo desejo de ser livre. E vc ouve o chamado. E vc caminha na noite. E vc olha para o céu. E vc imagina o seu céu. E vc sente a noite e lembra de tantas outras noites onde tudo o que vc queria era ter tido mais tempo antes que o sol trouxesse o dia dos zumbis de colarinhos e gravatas. A noite pertence aos que sonham - mesmo acordado.
Sábado, Março 12, 2005
Reunião do sindicato.
Sexta-feira, Março 11, 2005
Greve.
Sexta-feira, Março 04, 2005
As vezes eu abro o editor do blog sem idéia alguma do que vou escrever e mesmo assim as palavras, em sua estranha conexão pensamentofigurapalavradedoteclado, acabam se jogando no monitor sem que eu tenha conhecimento algum. Muitas vezes eu tento reler alguns dos posts. Começo desde o dia em que só queria ser um anão de jardim e venho até hoje onde me sinto tão perdido quando a branca de neve na sua fuga por dentre a floresta. Bom...ou...ruim...estar perdido é um sinal. Mas...qual é o sinal mesmo!?
Bom...ruim...pode ser qualquer coisa. No mais eu me amarro em horóscopo. Mas, os astros não têm todas as respostas. Então, por que ficar por aí correndo atrás de respostas se tudo o que precisamos é de um pouco de ação!? Bom...e isso não é ruim...é que meu inferno astral passou e me deixou inteiro como se nunca tivesse acontecido. Dizem que o inferno astral começa um mês antes do seu aniversário e vai até um mês depois. Eu entro no meu inferno astral no natal e termino no carnaval! Nada mal...a festa sagrada da ressurreição e a festa profana da carne.
Foi um inferno astral que se não fosse o inverno, que é mais irritante do que realmente gelado, teria sido perfeito. O mais engraçado é que eu tava preparado pra tudo. Inclusive para um retomada meteórica de sonhos passados. Retomada e derrocada, pois, afinal, eu não acredito em fantasmas, mas, que eles existem, existem! E isso é ruim, definitivamente.
Mas não só de fantasmas vive o homem. Eu também tenho lá os meus demônios. Afinal, quem não os têm!? Só não podemos suprimí-los. Sim! Expresse toda a sua angústia, as suas dúvidas, medos, anseios, paixões, raiva, ira. Talvez assim, como eu estou tentando fazer agora, vc consiga achar as respostas certas para que todos os seus demônios te deixem em paz. Mas..viver sem eles torna a vida um tanto quanto chata, convenhamos. O que é o homem sem dúvidas!? O que é "ser" homem sem dúvidas!? Outro dia li uma reportagem que falava que o medo é o principal responsável por ainda existirmos e tals. Afinal, o medo é um instinto de sobrevivência. E não são as dúvidas!? Direita ou esquerda!? Continua ou para!? Preto ou branco!? Pular ou não!? pulapulapulapulapula! ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! E ele pulou! Sem medo mas, antes disso ele duvidou. As vezes a dúvida se torna mais importante do que realmente é o medo.
E para cada dúvida resolvida, uma nova se apresenta. E ela é imediata. E, muitas vezes, inconsciente. Ela, no seu jeitinho meigo de ser, vem na palabra "será!?". O "será!?" sempre admite uma secunda chance, outra hipótese. É tudo o que precisamos. Realmente confirmar o que queremos e se é aquilo mesmo que queremos ou deixar que o "será!?" se transforme em uma dúvida ainda maior do que o "será que era isso mesmo que eu queria!?", porque essa dúvida vai sempre existir, eu tenho certeza.
Enfim...sejamos práticos e consisos. Viver já é mais do que uma dúvida, não!? Então, entre o certo e o duvidoso, por que não apostar no duvidoso!? Talvez funcione, talvez não, quem sabe!? eu não.
Abraços...
Quarta-feira, Março 02, 2005
Um dia eu me perdi
Perdi a hora, perdi o tempo, o compasso
Perdi o passo e o acaso,
Me perdi no espaço.
Perdi de novo um jogo
Perdi de novo a guerra
Perdi de novo àquela
E perdi sem saber de nada
Perdi a graça, perdi de graça, perdi a caça
Perdi o sono, os sonhos
Perdi o medo, o medonho
Perdi outro abraço,
Perdi outro beijo,
Perdi o desejo, a direção e o sentido,
Perdi a cabeça, perdi
Perdi meu girassol encantado
Perdi a lua de anzol,
Perdi o juízo
Perdi meu sorriso e perdi.
Perdi tudo isso e perdi sozinho
Perdi e perdi sem querer um amigo
Perdi e quem quiser que se perca comigo,
mas que fique aqui o aviso
No meu mundo o nada se encontra
No meu mundo o tudo é vazio
No meu mundo o sol se perde na noite
E a lua só vem pra lembrar
que alguém se perdeu e não quer mais voltar.
Terça-feira, Março 01, 2005
Quando o verão estava no seu auge, a cabeça fervendo, o corpo suado e o asfalto derretendo no horizonte, a única coisa que vinha na minha cabeça era o inverno. Mas...no meio disso existe o outono. As folhas, antes verdes, se avermelham e se tornam um manto marrom que segue o rumo do vento. E vc finalmente se sente preparado para o inverno.
É muito legal ver todas essas transformações. Principalmente aqui que elas são super definidas. Uns dois posts antes, eu disse que lá vinha a primavera. E é fácil notar isso. Os dias começaram a ficar mais longos. Os esquilos já se jogam das árvores. E daqui uns meses estarão se jogando na frente dos carros. E eu vou poder mais uma vez falar sobre o movimento suicída dos esquilos norte-americanos. Enfim...mas...ainda é inverno e agora eu que me sentia preparado já não aguento mais. Estou no meu limite. Detalhe: está nevando de novo! PORRA!
Não é chato. É muito chato. Tudo parece igual coberto pelo branco idiota da neve imbecil. E vc se sente triste. Uma tristeza que beira a loucura. Eu só não me mato agora pq eu quero estar vivo para ver o último floquinho de neve derreter no calor insuportável de 40 graus. Sim, 40 graus...só pra castigar aqueles que reclamam do frio.
Abraços...