Segunda-feira, Agosto 29, 2005
Queria...
Queria saber pra te dizer a verdade. Queria uma verdade, pra ser sincero. Queria poder encher o mundo de absurdos vulgares, fúteis e imperfeitos só pra te ver sorrir. Ver os seus olhos encherem de fantasia e lágrimas. Queria conhecer essas lágrimas. Poder guardá-las, uma a uma, colecioná-las. Queria poder roubar o vento, as nuvens e as estrelas, o sol. Queria que tudo fosse sabor de canela. Queria saber mentir, fingir. Queria saber errar inconsequentemente, ser imperfeito, ingênuo, puro. Queria o toque, mesmo que rústico. Um tapa, um chute, um soco. Queria todas as palavras, mesmo sem sentido algum. Queria a completa desordem, o caos. Queria acordar, talvez nunca. Queria ouvir os gritos, os sussurros. Queria que o mundo se calasse e fosse surdo. Queria a mais falsa e concreta mentira. Queria tudo ao acaso, ao léu, incerto. Queria o medo, queria a glória. Queria o mundo perfeito, à sua vontade, se isso te fizer feliz.
ai ai...
Sexta-feira, Agosto 26, 2005
Platônico
À distância imensurável do toque, o acaso. Ao acaso, a simplicidade que, de tão simples, chega a ser infinita. O infinito e um sonho que volta às dúvidas do acaso. E a esse ciclo inconstante, instável, quase tortuoso, eu me rendo. Pra que lutar!? Contra o quê? Contra quem se não eu mesmo? Aceito. Não por ser fácil e tampouco pela grandeza do ato. Não há grandeza alguma, aliás, muito menos facilidade. Há apenas a vontade, o desejo, a loucura devassa, imoral. E como adoro toda e qualquer imoralidade que venha daquilo que é tão puro. E é essa vontade que eu aceito. E é essa vontade que se escondeu por tanto tempo sem motivos e com todos os motivos do mundo, que eu aceito mesmo com medo. Mas não um medo fraco, covarde, pelo contrário, um medo de que tudo acabe sem ao menos ter existido. Mesmo porquê, nenhuma existência seria suficiente.
Abraços...
ps.: Quão longe chegaria a sua loucura!?
Quinta-feira, Agosto 25, 2005
Natureza viva
Terça-feira, Agosto 23, 2005
Natureza morta
Sábado, Agosto 20, 2005
Não que eu não seja feliz. Não que eu seja o homem mais feliz do mundo. Acredito em níveis de felicidade, mas, nunca em uma felicidade plena, absoluta. Mas sou insatisfeito, isso é fato. Sou e sempre serei. Não somos todos!? E é exatamente por isso que não concebo a tal felicidade absoluta.
Quantas vezes fui e senti o que era a pessoa mais feliz de todo o universo? Quantas vezes achei a pessoa certa para o momento perfeito? Quantas vezes essa pessoa foi perfeita para o momento certo? E quantas vezes a certeza e a perfeição me fizeram cego a ponto de esquecer que até mesmo era feliz?
O engraçado é que sempre liguei a felicidade a outro pessoa. Como se eu dependesse daquilo, como se só existisse aquela tal maneira. Mas não. A única e perfeita felicidade só poderia ter sido alcançada sozinho. Quando consegui me desprender de tudo, exatamente tudo, de qualquer sentimento infantil de amor ou rancor, de qualquer coisa séria ou banal, de qualquer razão, quando me vi carne, osso, alma e sonho, estava em paz. Na verdade, aquilo era só o equilíbrio.
E nessa infinita senóide, nessa oscilação eterna, só a encontrei - a felicidade - nessa linha reta. Na linha que se mantêm indiferente, que não se deixa abalar. Mas, é claro, a euforia e a melancolia são constantes em toda e qualquer equação. Nessas horas, eu prefiro pensar que, por mais linear ou retilínea, na essência, caminhamos todos pelas mesmas ruas sinuosas de luzes e sombras, de becos e tropeços, de copos e delícias, de vozes e ecos, de flores, de pedras, de sal. No mais, sou a minha própria contradição. Fui feliz, mas só soube quando a tinha exaurida, cansada de mim. Ainda a vi ontem, mas fugiu, sabe-se lá para onde.
"...agora eu era um rei, era um bedel e era também juiz, e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz..."
Abraços.
Segunda-feira, Agosto 15, 2005
A minha sobrinha.
Abraços...
Sábado, Agosto 13, 2005
Aventuras emocionais
Olhou o seu reflexo no espelho: o rosto pálido, os olhos fundo, olheiras marcadas. O suor frio como que prevendo o que já era inevitável. Fechou os olhos, jogou um pouco de água no rosto e quando os abriu novamente sentiu a primeira convulsão. "Fudeu!", ele pensou. Perdeu as forças nas pernas que já estavam bambas e foi atirado contra o piso de ladrilhos cor-de-rosa. Zonzo, perdido, juntou forças para se levantar. Apoiou a mão no lavatório, os pés na privada e tentou - em vão. O corpo já não o obedecia. Foi então que veio a segunda convulsão. Ele se retorceu pelo chão, parecia que todas as suas forças se esgotavam a cada pulsar. Ao voltar a si, o pânico. O banheiro revestido de vermelho.
Desesperado, olhou para o seu corpo e viu que tudo estava vermelho. O banheiro havia se transformado em uma nave interestelar viajando na velocidade da luz e enfrentando a tempestade meteórica do século. Já não enxergava nitidamente. Tudo o que via eram pontos brancos, como se o coração já não tivesse força. Mas, sentiu o sabor da sua vingança. Ali, deitado, no banheiro da casa dela, durante aquela festa tão esperada, ele deixaria a sua marca. Ficou imaginando quem o encontraria ali e qual seria a reação dela. "Com certeza não vai chorar, vai entrar em pânico, mas não vai chorar. Ela nunca chorou", ele pensava. Pensava também que ela nunca mais entraria naquele banheiro sem se lembrar dele, fosse lá o motivo, ela iria se lembrar do seu rosto pálido, dos azulejos respingados, dos frascos de perfume derramados pelo chão. Ela nunca mais seria a mesma e ele sabia disso. "Ela merece", bravejou em voz quase inaldível enquanto imaginava ela ali, ajoelhada, limpando o vermelho daqueles ladrilhos ridículos, lamentando o dia em que o conhecera, lamentando todas as promessas que fizera. E um sorriso mórbido só foi interrompido por uma última convulsão. E ele sentiu que esse talvez fosse o seu último suspiro.
Tentou manter a calma. Impossível, ainda mais quando lembrou do quão asqueroza ela era e que seria muito capaz que ela contratasse uma empresa de limpeza e chamasse o Papa, o Budah e todas as entidades para que purificassem aquele banheiro. Pensou que talvez tivesse sido melhor ter feito tudo aquilo na banheira, talvez fosse mais dramático. Tentou desistir de tudo e levantar, mas já era tarde. Caiu pela terceira vez e decidiu que ficaria ali, parado. Que não iria atrás de ajuda alguma, que não houve dia em que precisou de ajuda e que não seria aquela a hora.
Encheu a sua cabeça de memórias. Lembrou de todos os momentos bons, das risadas, dos delírios. Sorriu novamente e se sentiu realizado. Foi então que ouviu passos vindos do corredor. Vinham com pressa, quase correndo. Bateram e bateram na porta e como loucos saídos de um hospício gritavam - e como gritavam. Bateram novamente. Ouviu uma outra voz que disse "esse banheiro já está assim há mais de uma hora, tem alguém trancado aí dentro". Quando ele pensou em alcançar a fechadura para que entrassem os loucos e o vissem ali na sua mais pura verdade, ouviu um "bam!!". Arrombaram a porta e a paz daquele momento tão "solene". O mais triste é que ele só soube depois que a porta atingiu a sua cabeça com tamanha força que fez como ele perdesse a consciência.
Acordou dois dias depois na enfermaria de um hospital. A cabeça ainda doía e o coração se apertou. A não conclusão do seu plano foi de tamanho desapontamento que não conseguia pensar em mais nada a não ser chorar. Um choro de arrependimento misturado com um pouco de revolta. Olhou para o criado mudo ao lado da cama e viu uma folha de papel dobrada com o seu nome escrito e assinado com o nome dela. Ali, sozinho, entre moribumdos e enfermeiras, finalmente ele achou que fosse ser feliz. Abriu quase que imediatamente, pena que para o seu próprio desgosto.
"O que você esperava que eu sentisse!? Dó!? Você sempre foi assim, né!? Dramático. Se você tivesse um pingo de noção, de auto piedade, teria se privado dessa cena ridícula! Esqueça o meu telefone, o meu endereço, o meu nome, esqueça qualquer coisa que tenha relação comigo. Espero que a pancada na sua cabeça valha o preço de uma fechadura nova. Sim, pq, além de ter que contratar uma empresa de limpeza, eu fui obrigada a chamar um marceneiro e um chaveiro, sem contar o taxi pra te levar até o hospital. Espero que hoje vc esteja se sentindo a pior pessoa do mundo, pq é assim que eu me sinto quando entro naquele banheiro e lembro do que vc fez e lembro que um dia cheuguei a pensar que ainda nos entenderíamos. Não, não vou voltar atrás. Não, não quero. Não e pq não. Ahh, e antes que eu me esqueça, peguei as suas chaves e fui até o seu apartamento e já peguei os meus livros e as minhas roupas de volta. Não precisa mais se preocupar, só sumir!"
Ainda atordoado com o teor daquela carta foi abordado por uma enfermeira que se aproximou para perguntar como ele se sentia. Ele, perdido dentro do nada que tomava a sua mente, respondeu que estava bem mas que não sabia direito o que tinha acontecido. A enfermeira, uma senhora que já aparentava certa idade e que carregava no crachá a foto de uma criança, respondeu: "Pela cor das suas roupas, o senhor bebeu vinho demais e, pelo jeito, do mais barato, só isso, natural que não lembre de muita coisa. Estende o braço para que eu tire o seu pulso?".
Plim Plim.
Terça-feira, Agosto 09, 2005
Porque os Teletubbies não são felizes
por Luciana Lima, enviada especial ao mundo colorido do algodão doce
Sou viciada em andar. Andar como uma perturbada mental, sem destino. Andar à noite, principalmente. Andar com o vento frio na cara. Andar muito. Andar com passos apressados por ruas estranhas e com passos aliviados por ruas tranqüilas. Andar, andar, andar, andar.
Dia desses, depois de horas andando, ao chegar em casa, quebrada, com os pés arrebentados, após quase ter sido atropelada (pela bilionésima vez) e quase ter morrido afogada em uma poça (drama), vi, jogado pelo chão, um livro de infância da minha irmã com uns desenhos dos Teletubbies, aqueles bonecos estranhos e cabeçudos sempre com um sorriso psicótico em suas bocas gigantes. Ainda com os pés doendo, tirei meu par de tênis em estado terminal e experimentei a sensação de ter os pés livres, livres do tênis, livres da dor que já começava a me perturbar em excesso. Machado de Assis já tinha percebido o benefício de se livrar de um par incômodo de calçados, infelizmente nasci muito depois dele e essa minha sensação pode soar como plágio. Mas o fato é que eu nunca tinha prestado atenção de verdade no quanto é bom quando meus pés estão doendo muito e tiro o tênis. O bem-estar (palavrinha salafrária típica de livro de auto-ajuda) que se seguiu só pôde ser identificado por eu ter experimentado a sensação de incômodo, dor. E, nesse dia, em que devo ter andado cerca de 2984769 km, meus pés doíam desgraçadamente. Doíam muito. E foi uma verdadeira felicidade tirar o tênis. Uma sensação muito agradável, mais agradável ainda quando coloquei os pés sob a água morna.
Resolvi, então, olhar para os pés dos fatídicos personagens. Pés macios, andando sempre pelos campos, pela grama macia, sempre com passos cuidados, pensados, sem muitas empolgações. Sempre sorrindo, é verdade. Mas percebi que os teletubbies não podem ser, de fato, felizes, apesar da expressão de seus rostos e de suas risadinhas paranóicas. Eles nunca sofreram. Não há registros de episódios em que tenham andado descalços em florestas escuras repletas de gravetos pontiagudos, ou sido açoitados, ou obrigados a dançar funk pancadão nus dentro de uma igreja ortodoxa, nada do gênero. Logo, essa felicidade não passa de um sentimento medíocre, por convenção visto como felicidade. Rir o tempo todo não é sinônimo de felicidade, assim como chorar o tempo todo não é sinônimo de tristeza. É preciso um contraponto para se estabelecer um sentimento pleno. Eles riem o tempo todo, mas não são felizes. Só é feliz quem experimentou a dor, assim como só sofre quem experimentou a alegria. Andar sempre por caminhos regulares, com calçados macios, sem se deixar cansar é um ato equilibrado e equilíbrio não é felicidade, é um interlúdio infindo de algo que poderia vir a ser. Teletubbies é sinônimo de equilíbrio. E eu não quero ser um teletubbie. Quero andar à noite, por ruas irregulares, por paralelepípedos, caindo em poças, desviando de carros, com os pés doloridos, inchados, rasgados. Quero sofrer e sentir o perigo pra saber reconhecer a felicidade. A felicidade verdadeira só existe pra quem conhece a verdadeira infelicidade, logo ambos são importantes.
Quero que meus pés doam muito pra eu me sentir verdadeiramente bem quando tirar os sapatos, porque eu sequer me lembraria de que tenho pés se eles não me causassem sensação nenhuma. Ou então, chegaria o momento em que me seriam insignificantes, se causassem sempre as mesmas impressões.
Nessa noite eu fui feliz. Graças aos Teletubbies e suas expressões alucinógenas.
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
luzes e delírios - aos mais sensíveis, o medo
E os céus se fecham com suas cortinas de nuvens negras enchendo tudo de um tom cinza azulado e, como espasmos luminosos vindos da tela de uma tv absortamente ligada, o show de luzes não cessa - algo vive. O barulho como o rugir de uma besta encurralada, acuada. E o eco, o nada. E novamente a luz.
E algo vive. As luzes e as sombras, ao olhar tudo de fora, sabe-se que ali um dia viveu. Hipnotizado. O conforto anestésico das memórias e almofadas, os variados e coloridos tons de uma mesma lembrança. Tudo ecoa, tudo parece vindo de um abismo onde reside um vazio. Jogado, solto, amargo, enauseante. E o céu estribilha o mesmo tom, a mesma luz.
Eu sinto medo, ela disse. Ele não resistiu e sorriu, olhando atentamente para a janela esperando o próximo barulho. Quando vinha a luz, fechavam os olhos com força, com toda a força que tinham, e sentiam o barulho estremecer seus corpos. Mãos juntas e a sensação de que o próximo poderia ser o último, de que o próximo poderia ser o mais forte, de que talvez não houvesse um próximo. Mas ele viria, as folhas sussurravam as dores a um vento qualquer e sabiam - ele viria.
E se abraçavam a cada ruído e a cada abraço um beijo e a cada beijo a espera de um próximo som. E quando, exausto, o céu descarrega toda a sua fúria e chora, eles já não temem, as mãos se perdem e eles se sentem sozinhos.
Pudera nunca ter chovido.