Como sempre, tudo parece ser "tarde demais". É tarde demais para voltar. Tarde demais para voltar atrás. Tarde demais para pedir desculpas. Tarde demais para pedir qualquer coisa. Como sempre, o sempre nunca é o bastante, nunca sempre impera e o nada é praticamente o meu Deus, minha fé. Fé - maldita seja. Malditas sejam todas as palavras que não deviam ser ditas, todos os dias que não deviam ter existido e todas as vezes em que eu pequei por simplesmente ser o que eu sou. Se lamentar bastasse, se fosse isso suficiente para todo o meu mundo se tornar real, se qualquer sonho pudesse, se tudo simplesmente não ruísse, talvez um dia eu saísse da minha superficialidade infantil e ridícula. Foda-se. Cansei de mim. Cansei de tentar ser. Cansei de tentar. Cansei de existir só pra mim. De tornar tudo tão real e puro só pra mim. De ter tanto e nada. De não ter nada. Exatamente nada e nenhuma escolha a não ser a mesma. As mesmas dores. Os mesmos medos. O avesso de tudo e a essência do nada

Empoeirado

Antes da Esclerose


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Terça-feira, Junho 27, 2006

"I used to love her, but i had to kill her" - versão eutanásia.

Decisões são sempre cruéis. Eu lembro de um comentário que o Jô Soares fez sobre uma frase do seu filho. Diante de uma escolha, ele abriu mão de qualquer coisa por querer as duas. Quando foi questionado, ele disse que escolher era perder sempre.

Mas eu tive que escolher. Recebi ontem uma foto da minha cachorra, a Cora. Está em seus últimos suspiros. Menos que a metade do que foi um dia. Não está doente, nunca foi doente. Está velha. Quando vi a foto eu só quis saber se ela estava sofrendo. Disseram que não, que caminhava com ajuda, comia pouco. Mas passa os dias deitada. O que vc faria? Se a amava era incondicionalmente. Paixão paternal. Nunca existiram nela defeitos. Era sincera de olhar, pura de coração, ciumenta nas horas vagas e carinhosa em todo o pôr-do-sol. Foi a minha fiel escudeira, guerreira de apuros. Foram-se treze anos que se fecham em uma era. Eu entrei em uma crise de choro. Ela não merecia passar por aquilo. Decisão: Sacrificar ou deixar a natureza agir?

Eu sou apaixonado pela natureza. Chego até a ser contra a medicina. A medicina interfere no ciclo natural da vida. Mas, deixá-la sofrer? Não há cura para o que acontece com ela. Ela não manifesta vontade alguma de continuar passando por aquilo. Como eu sei? Ela sempre me entendeu quando eu falei com ela. E isso é coisa que só quem já criou vários cachorros sabe. E eu sempre procurei entender quando os olhos dela me pediam carinho. Era engraçado que eu a olhava e se não desse o carinho, logo após viria a pata. Quando atendia logo ao pedido, ela era ainda mais doce, se encostando em vc quando sentava. Ela era uma cachorra de classe. Uma dama.

Ela foi um filhote abandonado pela mãe que foi uma marinheira de primeira viajem. Primeira fêmea no quintal. Dois machos. Um era o pai. Cachorro imponente, forte. O outro o tutor. Dono do pedaço. Um vira-lata do tamanho de uma raposa, pêlo curto e preto. Preto mesmo. Total ausência de cor. Caçador de ratos e pequenos animais que corriam pelo quintal. Super perturbado e violento. Um indomável bicho do mato. Voltando à minha cachorra, ela foi um filhote fraco, não tinha sido amamentada. Passou apuros e sempre teve um porte muito magro, o que rendeu a ela o apelido de magrela. Mas só atendia ao meu chamado. Ninguém nunca conseguiu lhe dar apelidos. Eu a tinha adotado.

Dali, dos primeiros dias, dormia ao meu lado, no chão, encostada em minha mão. Muita vezes amanhecia na minha cama na fase juvenil. E quando se sentiu pronta, o mundo era uma gama de possibilidades.

Eu devo muito respeito para aquela cachorra. E eu estou longe demais para poder lhe fazer dormir tranquila. Mas, alguém criou os cachorros. Deve existir um paraíso só deles.

Abraços e latidos...

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Emendar surtos criativos é uma coisa complicada. Hoje, tudo o que eu escrevo parece banal. E tudo aquilo que eu já escrevi e releio parece banal. Não sei explicar. Do mesmo jeito que não sei o que escrever. As coisas que eu escreveria nem em mim cabem. Ao mesmo tempo que nada acontece, aqui dentro, onde as tempestades são intensas, o universo é sempre muito pouco.

E o que foi dito, e o que não foi dito e o que precisa ser explicado - tanta coisa.

E quando o limite para a verdade é menor do que o próprio orgulho...

Tudo é sempre destino. Nada é sempre imperfeito.

Abraços.

   
Beba-me! Coma-me!